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Revertendo a paralisia

3 de maio de 2017

    Disse ao paralítico — “eu lhe digo: levante-se, pegue a sua maca e vá para casa”.

Imediatamente ele se levantou na frente deles, pegou a maca em que estivera deitado e foi para casa louvando a Deus.

Todos ficaram atônitos e glorificavam a Deus, e, cheios de temor, diziam: “Hoje vimos coisas extraordinárias!”

    O trecho que você acabou de ler é um relato bíblico onde Lucas, o evangelista, descreve uma ocasião em que Jesus Cristo ordena à um homem paralítico – provavelmente paraplégico – que ele levante-se e ande. Talvez dizer á um paraplégico para levantar e andar possa parecer algo ilógico, ou até mesmo cruel e de mal gosto, mas, para a surpresa de todos, Lucas descreve que o homem levantou-se na frente dos que ali estavam presentes, pegou sua maca e foi para sua casa, andando.

            Não é de hoje que as sociedades de todo o mundo se unem em prol de seus parentes, amigos ou conhecidos que, por algum motivo, perderam alguma de suas funções, como a visão, a audição ou as funções motoras. Porém, com as inovações tecnológicas nós chegamos cada vez mais perto de testemunharmos surdos ouvindo, cegos vendo e paralíticos andando. Exemplos disso são os implantes cocleares, que funcionam usando pequenos microfones que retransmitem estímulos acústicos diretamente para o nervo auditivo, contornando, assim, partes não funcionais do ouvido interno.

Implantes Cocleares

            Os implantes cocleares funcionam de forma bastante elegante, pois são simples e, ainda assim, eficazes. No entanto, representam uma das poucas tecnologias que permitem a restauração de um sentido e que estão disponíveis para a população. Muitos anseiam por um implante ocular, que envie informações visuais diretamente para o nervo óptico, contornando as estruturas danificadas dos olhos, ou até mesmo implantes na medula espinhal, que contornariam lesões espinhais e restaurariam a comunicação entre o cérebro e o resto do corpo, possibilitando à uma pessoa paraplégica “pegar a sua maca e andar”.

            Pessoas que sofrem com lesões na medula espinhal ou com doenças nos globos oculares realmente sabem valorizar seus sentidos. E aqueles que estão mais próximos também presenciam os desafios do dia a dia de quando se perde uma, ou algumas, de suas funções. Gostaria de trazer, no entanto, pontas de esperança para o futuro.

            Em fevereiro deste ano, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) revelou sua lista das dez tecnologias inovadoras que precisamos conhecer para 2017. Dentre elas estão caminhões não tripulados, que viajam sem a necessidade de ter um ser humano ao volante, computadores quânticos e terapias genéticas, porém a primeira da lista intitula-se “Revertendo a paralisia”. A reportagem começa com a seguinte frase:

         “Os cientistas estão fazendo progressos notáveis no uso de implantes cerebrais para restaurar a liberdade de movimento que as lesões da medula espinhal roubam”

          Ao descrever esses progressos notáveis que encabeçam a lista do MIT de tecnologias inovadoras, o editor sênior de biomedicina, Antonio Regalado, traz informações de pesquisas que vem ocorrendo na Europa e nos Estados Unidos, que visam restaurar os movimentos de animais e seres humanos com lesões na medula. Uma pesquisa liderada pelo doutor francês Grégoire Courtine, da Escola Politécnica Federal de Lausane, utilizou-se de implantes neurais no cérebro e na medula de um macaco cuja medula espinhal havia sido lesionada de tal forma que o animal havia perdido os movimentos da perna direita.

Como o implantes funcionam?

           Os implantes utilizados funcionam da seguinte forma: um microchip foi posto atrás do crânio com seus terminais ligados ao córtex motor do cérebro do macaco. Um outro eletrodo, um flexível assim como a medula, foi conectado na região após a lesão espinhal. Ambos os dispositivos eram wireless, ou seja, comunicavam-se sem fios. O microchip, então, captava as atividades dos neurônios responsáveis por enviar informações pela espinha para que a perna direita se movesse, esses sinais captados eram retransmitidos para o eletrodo flexível posto na medula espinhal, e este último, por sua vez, ao receber os sinais do microchip, enviava informações eletroquímicas para os músculos da perna direita do macaco.

Implantes Cocleares

            Tudo isso, é claro, após anos e anos de estudo e pesquisa, acertos e erros. Mas, por fim, os pesquisadores gravaram o macaco, que antes havia perdido o movimento da perna direita, caminhar, com todos os seus membros funcionando, por cima de uma esteira rolante. Uma façanha de última geração e incrivelmente promissora.

           Um outro estudo relatado pelo MIT e realizado numa universidade de Cleveland, Estados Unidos, é ainda mais interessante. Neste caso a equipe, liderada pelos cientistas Robert Kirsch e Bolu Ajiboye, utilizaram o mesmo tipo de tecnologia utilizada pelo doutor Courtine, nos macacos. No entanto, há uma diferença crucial entre os estudos. A equipe de Cleveland estava tratando um homem tetraplégico, capaz de mover apenas sua cabeça e seus ombros, que se voluntariou para participar da terapia experimental.

            Cirurgicamente, a equipe pôs dois implantes de silicone, menores que aqueles pequenos ímãs de geladeira, no cérebro do paciente. Esses implantes possuiam cem fios específicos para a captação das informações elétricas provenientes dos neurônios deste cérebro. Além disso, foram colocados também dezesseis eletrodos finos nos músculos do braço desse homem. Em vídeos do experimento, o voluntário pode ser visto levantando o braço e abrindo e fechando sua mão. Imagine a sensação de quem há muito tempo não mexia nada abaixo de seus ombros, agora movimentando todo o braço e a mão. Ele até mesmo segurou um copo com um canudo e o levou à sua boca. Uma tarefa realmente extraordinária capaz de ser realizada por meio do uso de um avanço tecnológico inovador.

            Essa é apenas uma das tecnologias promissoras para os próximos dez à quinze anos. Mas, desde já, vale a penas conhecê-la. Tudo isso traz esperanças para um futuro em que também poderemos dizer: “Hoje vimos coisas extraordinárias!”.

Dr. Tiago Pereira Damaceno

com colaboração de Matheus Teles G. de Araújo

Fonte:

MIT Technology review – Reversing Paralysis

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